A chave de Miguel
- Lamento, não posso ajudar dessa vez, espero que tenha sorte amanhã e uma dica faça essa barba, está parecendo um vagabundo.
Foi o que ele me disse, um bom conhecido sempre foi sincero comigo, mas estou sozinho novamente, afinal quando não estive?
Longas escadas, passo a passo, ainda firmes apesar dos longes pensamentos, sempre fisgados pela necessidade de resolver um problema, os carros se movem rápido pela rua, como se o mundo fosse acabar agora, saudade do tempo em que as coisas eram simples. O rumo daquele dia era até onde as pernas agüentariam ir, constantemente o olhar se focava para o céu, esperando uma ajuda, uma resposta da pergunta que latejava, - por quê?
- Sempre foi assim, primeiro um ápice depois a queda, os livros de historia sempre me fascinaram, a filosofia contida em cada guerra, as estratégias usadas por aqueles que quase dominaram o mundo, quase!
- Será que comigo vai ser assim, “pare de ser burro já é assim”, infeliz verdade, vejo esses homens e mulheres indo para diferentes lugares, com distintos desejos e movidos pela vontade, essa tal que não tenho mais tanta força quanto antes.
Tantas foram as cidades que o sentido de casa se perdeu, em meio as paisagens bonitas ás vezes, aterrorizante em uma noite, que viria a mudar o eixo, tornando aquela vida, uma sobrevivência em dois extremos, tudo ou nada.
- Vejo a vida pelo seu lado bom, nada eu já tenho, só preciso conhecer o senhor tudo.
Um sorriso no rosto, a cabeça volta a se erguer e como num passe de mágica, como aquele demônio que fica do lado esquerdo do ombro, a velha e maldita frase reaparece.
“Sempre pode piorar Miguel”
Estranhamente o sorriso fica ainda mais vivido, o instinto faz levar a mão até o pingente de prata, ultimo bem deixado por sua avó antes de falecer, cena antiga que passa como um filme. Inverno rigoroso, uma velha casa de madeira que seu bisavô recebeu como forma de pagamento por uma divida de jogo, pôquer velho habito de longas gerações incluindo a de Miguel, ninguém de sua família jamais admitiu que os problemas fossem atribuídos a isso, todos se gabavam daquela casa conquistada com uma quadra de damas, uma única vez.
- Lembro-me claramente de seu olhar penetrante buscando em meus olhos a resposta, sem ao menos esboçar a pergunta, era como se ela me comesse com aqueles grandes olhos verdes, uma pele branca com sardas, enrugada pelo tempo e um forte cheiro de mirra que vinha de um incensário, brinco que foi o mesmo que usaram com o menino Jesus, mas nunca mais falei após apanhar muito; “olho no espelho e vejo as cicatrizes que os fios deixaram nas minhas costas, forte sou agora, mas já desejei a morte do carrasco doutrinado”. Sabia que os traumas deixados por aqueles demônios fardados, exibindo suas estrelas malignas de ferro, marcaram a alma de meu povo, feridas sempre abertas, agora entendo porque Goretti é tão amarga, soube que ela perdeu a vontade de viver quando me contou sua historia, realmente gostaria de nunca ter ouvido o que é o inferno, os livros que sempre amei não me diziam os sentimentos e relatos daqueles que foram usados como ratos de laboratório, ela me fez chorar, me fez ter ódio, rancor e acima de tudo um karma, o fardo de levar, números tatuados em sua pele como ressentimentos cravados em meu coração.
- Miguel, deixe-me ver sua mão... seu caminho é incerto, vejo duas situações e no fim delas sua morte é inevitável, mas todos tem uma chance de mudar seu próprio destino, gostaria de pedir um favor. Olhando em meus olhos trêmulos, segurando minha palma com carinho, sinto o calor de suas mãos enfraquecendo, mulher tão forte, sempre ganhava nas discussões a mesa de jantar, mesmo estando errada, um simples olhar diferente fazia a mesa toda ficar em silencio novamente, aos poucos voltavam ao assunto, não sei se ela percebia, toda vez eu olhava pra ela e via algo parecido com um sorriso, era a única que não jogava, pelo contrario se estive próxima não havia jogo e sim oração; tradicional gostava de orar em latim, coisa rara, aulas de latim, nossa não gosto de voltar naquele tempo, digo apenas que a didática dela era meio medieval;
- Sabe por que fui dura com você por todos esses anos?
- A senhora só fez o que achava ser o certo.
- Cale a boca Miguel, estou morrendo, então não seja piedoso, sei muito bem como sou, atormentada pelos gritos daqueles que fizeram a passagem em dor, raivosos jurando voltar e matar aqueles demônios. Miguel dedico o tempo que me resta por revelar um segredo, uma lenda.
